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CURSOS DE EXTENSÃO DA USP PODEM GERAR INDEPENDÊNCIA FINANCEIRA

segunda-feira, 10 de outubro de 2016

Os cursos de extensão da USP e os projetos desenvolvidos pela universidade, atendendo necessidades da indústria, promovem o desenvolvimento tecnológico, garantem a arrecadação de recursos para investimentos no campus, como a instalação de equipamentos e de laboratórios, melhorando a qualidade do ensino e da pesquisa em todos os níveis.

Porém, a USP tem poucos cursos de extensão em algumas áreas muito específicas. Na opinião do diretor da Escola Politécnica da USP (Poli-USP), professor José Roberto Castilho Piqueira, os cursos são ótimos, mas em pequena quantidade. “Com mais cursos poderíamos atender melhor, o que é de interesse da população. Podemos dar bons cursos de extensão a custos muito mais baixos do que as universidades particulares e de melhor qualidade. Nossos cursos de extensão são amplamente satisfatórios, o mercado vem para a USP para fazer os cursos, as pessoas querem participar porque eles são muito atualizados”, afirma Piqueira.

Várias empresas contratam os cursos oferecidos pela USP, mas nenhuma tem privilégio. Caso uma montadora pretenda matricular 10 alunos no curso de Engenharia Automotiva, por exemplo, esses alunos precisam estar entre os 20 aprovados no processo seletivo. Não é um curso de uma empresa, é um curso de interesse da indústria automotiva, explica Piqueira.

Além dos cursos de extensão, a Poli-USP mantém um bom mecanismo de arrecadação de recursos que vem dos projetos. Agora, por exemplo, há um projeto em conjunto da escola com a Shell e ajuda da Fapesp no valor de R$ 70 milhões, que serão colocados na escola em equipamentos, em bolsas de iniciação científica, de mestrado, doutorado. “Desse total, uma parcela vem para a unidade e, com esse recurso vamos construir o Mezanino de Inovação”. O professor Piqueira explica que essa obra, a ser construída no Laboratório de Máquinas da Engenharia Mecânica, será um espaço para as equipes de Baja, Aero Design, Keep Flying. “Essas equipes, formadas por alunos da graduação terão o espaço delas, sem depender de recurso orçamentário”. Esse projeto com a Shell tem duração de cinco anos. Provavelmente, dessas equipes sairão spin off, empresas de alunos, etc. Esse é o bom negócio, que é honesto e todos os atores poderão ganhar alguma coisa”.

Existem casos em que a indústria tem a necessidade de realizar pesquisas em um laboratório mais moderno, mas ao invés de implantá-lo em suas instalações se propõe a investir dentro da USP. Nesse exemplo o diretor da Poli explica que a escola não pode ter laboratório dedicado a uma indústria, uma universidade pública não pode ter isso. Mas, pode realizar um projeto para a Petrobras, por exemplo, e ganhar como contrapartida um laboratório que depois é de uso público. O nosso Tanque Numérico é um exemplo disso. Ele foi construído com recursos da Petrobras e hoje presta serviços para uma porção de empresas públicas e privadas. “O Tanque Numérico é talvez o parque tecnológico de maior utilidade para a sociedade brasileira e motivo de orgulho para nossa comunidade”. Piqueira explica que o Brasil tem um mecanismo de exportação de grãos que utiliza os diversos portos que precisam ser cada vez mais eficientes para atender navios de altíssima tecnologia. “O Brasil domina essa tecnologia porque algumas universidades, entre elas a USP, fizeram um trabalho de desenvolvimento muito grande na área de simulação de sistemas portuários”. Outro exemplo é o laboratório de hidrodinâmica computacional. Inicialmente o laboratório fazia parte de um projeto para a Marinha e depois se transformou em patrimônio da universidade. Hoje, no laboratório, vários alunos de mestrado, doutorado e de graduação realizam suas pesquisas. “Precisamos deixar de ser dependentes exclusivamente do ICMS. Devemos ser capazes de pegar esse dinheiro e transformá-lo em tecnologia, em produto, em saúde pública, políticas sociais, e essas transformações têm que trazer recursos para que a universidade continue andando”.

Na opinião do professor Piqueira, a USP deveria fazer com que todas as unidades acompanhassem a Escola Politécnica, a FEA o Instituto de Matemática, que têm ótimos cursos de extensão que podem ser abertos a toda população, levando a uma melhoria de nível dos profissionais do mercado e trazendo recursos para a universidade para que ela continue mantendo sua excelência. Para tanto, primeiro é preciso desburocratizar os processos internos dos cursos de extensão. Há um histórico de opiniões de que a USP não deve cobrar pelos cursos. “Há uma visão equivocada dos cursos de extensão. Para aprovar um curso de extensão existe um mecanismo burocrático quase intransponível. Além disso, na USP temos uma politização partidária muito deletéria que se posiciona contra estes cursos. Política acadêmica é importante de se realizar, mas a universidade assumir posições partidárias radicais é muito ruim”. Para a aprovação desses cursos há mecanismos legais difíceis de serem transpostos. A universidade não vai conseguir manter-se no nível que ela tem hoje se não tiver mecanismos de captação de recursos extra orçamentários, complementa.

Distribuição dos Recursos

O dinheiro que entra por esses cursos é dividido em percentuais entre a reitoria, a unidade e o departamento. O percentual da reitoria, que é o maior deles, é um mecanismo de democratização, de equalização dos potenciais de ganho. Desse modo, um curso de engenharia de pontes, por exemplo, ajuda a manter uma pesquisa sobre o idioma Tupi. “Um curso de saúde pública, ou de nutrição atrai muita gente. O dinheiro arrecadado transforma-se em patrimônio da universidade”.

O segundo percentual é aquele que é da unidade, utilizado na melhoria do ensino e da pesquisa. “Se os nossos laboratórios tivessem apenas o dinheiro orçamentário estaríamos na mais absoluta penúria, e os alunos da Poli estariam fazendo experimentos em equipamentos da década de 1970. Vários foram construídos ou reformados com projetos da Marinha, da Vale e da indústria eletrônica trazendo ótimas condições para o ensino de graduação. A unidade também equaliza seus recursos, pois os departamentos têm potenciais diferentes de captação. Finalmente há o percentual do laboratório que captou os recursos, pois é necessário manter esse potencial de arrecadação com atualização de máquinas, formando gente, permitindo que os professores e os alunos participem de congressos, publiquem papers, etc.

Aprovação dos Processos

A aprovação dos processos para realização de cursos e projetos diz respeito apenas à parte burocrática interna da universidade e não de verbas. O mecanismo de aprovação implica o recolhimento de taxas, mas não há aporte de recursos da Universidade.

O diretor da Poli, professor José Roberto Castilho Piqueira ressalta que há pessoas que afirmam que ao participar do processo, o professor vai ganhar e vai parar de dar aulas de graduação. Entretanto, só pode participar de atividades de extensão o professor que estiver em dia com a CERT (Comissão Especial de Regimes do Trabalho), que verifica se o professor dá aulas de graduação, de pós-graduação. Só pode participar de atividades de extensão o professor que já faz um trabalho de alto nível para a universidade.

Na USP os professores ficam seis anos em regime probatório e a cada dois anos apresentam um relatório de atividades à CERT. Cumprido esse período, somente aqueles que querem se credenciar para trabalhar são avaliados.

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Professor José Roberto Castilho Piqueira