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FDTE INFORMA #17

CIDADES MAGNÉTICAS

terça-feira, 26 de abril de 2016

Cyro Laurenza*
Ao final do século passado, o mundo acadêmico insistia no término do “small is beatifull” julgando, pelo conceito de mercado e pelos investimentos em infraestrutura, que isso tinha acabado. Erraram. O mundo compreendeu que verticalização urbana para aproveitar a infraestrutura implantada complicou a maneira de administrar, viver, conviver e transitar em uma cidade. Os custos passaram a ser insustentáveis.

Administradores das cidades vêem somente a sua. Não compreendem que imersos em um mundo de cidades vizinhas, com elas crescem e se tornam muitas vezes conurbados, e quando isso acontece passam a transferir a responsabilidade desse núcleo para Regiões Metropolitanas ou para o Estado, pensando seu município sem levar em conta seus vizinhos. Erram muito e persistem no erro. Não descobriram que em pouco tempo as comunicações terrestres e de ondas magnéticas superaram imensos problemas na comunicação.

Planejamento é o único instrumento que constrói o futuro. Para existir deve ter como objetivo o tempo de muitos mandatos. Os eleitos podem pensar em planejamento, no futuro da cidades, encorajando rotas do futuro próximo e do mais distante possível.

As cidades que crescem de forma ordenada visam se tornar uma cidade bonita, agradável, daquelas que ao visitarmos, lá gostaríamos de viver. Não somos mais, como no passado, desejosos de viver no torrão natal. Além de bela, a cidade deve responder aos anseios do ser humano, que são o da seguran- ça, da possibilidade de se locomover tranquilo pelas calçadas, pelo privilégio de se deslocar pela cidade em tempos admissíveis, em boa e confortável mobilidade urbana.

Quem opta por continuar vivendo próximo ao torrão natal, pois ali deixou coisas importantes, parentes e amigos, precisa ter como se comunicar com facilidade em todos os níveis. Em atendimento a estas necessidades passou a surgir o transporte regional ferroviário de alta qualidade, com altas taxas de retorno social, integrando cidades e regiões. Alguém que reside em Milão pode trabalhar em uma pequena cidade a 200 quilômetros, onde possam existir escritórios e indústrias que congreguem técnicos de todo o norte da Itália.

Deve existir ainda a manutenção das leis econô- micas, financeiras, de taxas, tarifas e impostos, e que toda e qualquer mudança seja discutida com a sociedade. Com esses fatores desenvolvidos, estaríamos abrindo portas para absorver melhor CIDADES MAGNÉTICAS “refugiados” de outras cidades que podem trazer também outras riquezas. Grupos econômicos se encontrarão melhor assistidos em cidades construídas assim, e haverá crescimento ordenado nas melhores condições ambientais e de conforto humano. O prazer de viver ali e saber que o amanhã é mais ou menos previsível.

"Planejamento é o único instrumento que constrói o futuro"



As Cidades Magnéticas são as que possuem magnetismo de atração construído com muita dedica- ção, inteligência e planejamento na busca dessas três soluções “conforto visual, mobilidade excelente e segurança econômica”. Caroline Haynes, diretora de estudos sobre Cidades Magnéticas, da consultoria KPMG, desenvolveu extensa análise em nove cidades mundiais. Cada qual teve seu desenvolvimento seguindo táticas ou intuição, em um processo gradativo para se desenvolverem como imãs, não se tornando e, evitando até, se transformarem em Cidades Globais

Para sua dissertação Caroline escolheu Bilbao, Changwon, Christchurch, Denver, Songdo, Incheon, Malmo, Oklahoma City, Pittsburgh e Tel Aviv. O trabalho mostra que as coisas só acontecem se tivermos esses três momentos no desenvolvimento de uma cidade a partir do estado-da-arte em que se encontram: se tornar uma cidade bonita, agradável, daquelas que ao visitarmos, lá gostaríamos de viver; responder aos anseios maiores do ser humano, que são o da segurança, da boa e confortável mobilidade urbana; a manutenção das leis econômicas, financeiras, de taxas, tarifas e impostos, e que toda e qualquer mudança seja discutida com a sociedade.

Muitas cidades brasileiras estão se magnetizando, mas é possível que nenhuma reúna esses requisitos e então possa entrar no conceito final de magné- ticas atrativas. O Instituto ENDEAVOR destacou 14 em 2014 e 32 em 2015. Em reportagem na revista Exame, n.23, 2015, o jornalista Mauricio Oliveira conclui: “cidades de porte médio podem ser excelentes lugares para empreender – melhores até que muitas metrópoles”

Renasce no Brasil a consciência da necessidade de pesquisarmos novas abordagens de planejamento de cidades, regiões e macrorregiões. Por que não discutir respostas a essas questões: Como criar condições para que haja disseminação de cidades magnéticas no Brasil? Como tornar cidades como Campinas, Uberlândia, São José dos Campos, magnéticas? O que fazer com Regiões Metropolitanas imersas em intensa diversidade política? Por que o Brasil restringe a ampliação do Sistema Ferroviário de passageiros de longo percurso?

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Cyro Laurenza* Engenheiro civil pelo Mackenzie. Presidente do Conselho do Instituto para o Desenvolvimento dos Sistemas de Transporte –IDESTRA-; ex-presidente nacional do Sindicato Nacional das Empresas de Arquitetura e Engenharia Consultiva – SINAENCO e ex-presidente da FEPASA.